domingo, abril 20, 2008

Editoriar

Escrota. É assim que devemos chamar a matéria de um jornal americano que a trolha chupou nesse domingo, num descaro midiático de décima categoria.
"Talvez o dinheiro compre felicidade, afinal", era o título. E o resto era o resto...
Tratou de um "fato": 90% dos americanos com renda anual superior a 250 mil dólares acreditam que são felizes; já 42% "apenas" dos que ganham até 30 mil diziam isso.
Não entremos no mérito da conclusão do "repórter", uma vez que não podemos quantificar algo tão subjetivo - e portanto efêmero - quanto a felicidade; comprar, então, nem se fala... É uma falácia tosca e evidente que polui as páginas de mais um jornal pelo mundo, apenas.
Mas o que é perigoso é o pano de fundo disso. A sordidez do intuito liberalóide. Pois a única intenção passa longe de criar conceito: é apenas para que os leitores daquilo engulam a vontade de ganhar dinheiro e estar com vantagem. É algo pura e simplesmente intestinal, e nada mais que isso.
E o que causa isso na sociedade? Muita merda, oras.
Uma sociedade, afinal de contas, pressupõe o tal contrato - e quem leu La Boétie sabe que a esperteza mesquinha (não nesses termos, claro) transforma o sujeito em um contumaz traidor dos propósitos originais.
O dinheiro ganho, não o de trabalho, pois esse é quase sempre nada, mas o da exploração liberalóide (e isto é mais fato do que o fato que o repórter arrota), tende a desagregar os indivíduos que passarão a reproduzir a moral do ressentimento. E então a massa falida que resta, e não ganhou nenhum dinheiro, torna-se falida também de conceptu.
O dinheiro liberalóide não compra, mas rouba a felicidade dos que não o possuem, e dá ela ao que o detém.