A cara do BrasilSe a corintianidade não existe para esta superestrutura, é fatal que não esteja em campo. Já há algum tempo é assim, apesar de termos corinthianos vestidos com a armadura do Manto Glorioso. É o ciclo polibiano a la brasileira.
final de semana? leão deu folga
Pois é. Equipe que não treina aguça a mediocridade, e é exatamente isso que Leão está a fazer: mediocrizando de vez um grupo que até teria muito potencial para ser mais do que é, mas não encontra respaldo dentro do próprio clube, pelo motivo dito acima. A imprensa, adorando isto tudo, vem como urubu dizendo que o técnico agora se delicia com a disputa entre Gustavo e César. O que é isso? Fim da picada.
Assim, Leão vem a público dizer que vai entrar na retranca contra as sardinhas estivadoras. Marcelo Mattos, um guerreiro utópico, é mais Corinthiano; "Temos mais seis partidas dentro de casa e estamos todos muito focados. Acredito que se conseguirmos umas três vitórias consecutivas, sairemos dessa zona de rebaixamento e poderemos até conseguir uma vaga na Libertadores”. Sonhe com raça, meu camarada.
Mais um capítulo de nossa epopéiaO Povo em campoO mais antigo texto de estatutos do Glorioso que se conhece data de 1913. Foi aprovado em Assembléia Geral no dia 11 de junho daquele ano. Esse documento – que obviamente foi exigido para que o clube pudesse se filiar à Liga Paulista de Futebol – dirime qualquer dúvida sobre a data oficial da fundação. Ele estabelece o dia “1º de setembro como o da fundação do Sport Club Corinthians Paulista, com número ilimitado de sócios, que tem por fim a educação physica e a propaganda do football, ping-pong, etc.”. A data de 1/9/10 vale se admitirmos os fatos como eles devem ter ocorrido; o estabelecimento oficial da data de 1º de setembro de 1910 não é aleatório. Poderia ser contestada, como foi muitas vezes. O club dos operários era uma idéia que vinha sendo gestada há algum tempo, meses, e por diversas cabeças, naquele Bom Retiro debruçado em várzeas em que se jogava muita bola.
É que no ano do cometa Halley alguma coisa se havia decidido e tudo determinou para que o mais brasileiro teria um nome inglês, numa escolha democrática. Os fatos assim se encaixavam: fundado no dia 1º, a fundação decisiva, viveu-se nos dias subseqüentes (o dia 7, da pátria, e 8, de Nossa Senhora) os acertos e ajustes típicos das agremiações varzeanas: o training, a peneira, para avaliar quem jogaria no primeiro, no segundo e terceiro quadros, a escolha das cores da camisa (branca com punhos e gola pretos), a corrida para fazer os calções de sacos de farinha, arrumados com os espanhóis do mercadão, a vaquinha para comprar a primeira bola de capotão, o aluguel do campo do Lenheiro, a capina do terreno, as traves de bambu.
Time de várzea não treina, joga. A várzea sempre foi a pátria da improvisação e há quem diga que o Glorioso, como autêntico e opimo fruto da várzea, partiu para o seu primeiro jogo coma cara e a coragem. Sem reino preparatório nenhum. O Corinthians começou sua carreira futebolística formando um Timão a partir da experiência sabida de cada jogador. Conheciam-se os craques, os bons de bola, e estes haviam sido convidados e aceitaram vir jogar no novo clube. O Coringão, então não tinha um, mas três times. Houve um training, neste feriado, principalmente para amansar as rivalidades pessoais, apresentar em uma mesma perspectiva o pessoal do Botafogo com o pessoal do Pary, e com o pessoal do Domitila; ajuste de temperamentos, pois havia gente ali que trabalhava pesado e outros que tinham o privilégio de estudar em boa escola, uma vida mais mansa. Entretanto, se houve ou não o tal training, não há ninguém vivo pra contar e ata nenhuma para provar.
O fato mais comprovado e confirmado por inúmeras penas e depoimentos verbais é que houve o primeiro jogo de verdade, contra o União da Lapa.
O dia é incerto, e a incerteza vem da imprecisão de datas que se publicaram. O time A era capitaneado por Rafael Perrone, e o B por Anselmo Correa, dois dos cinco primeiros Corinthianos, nada mais normal. Ocorre então a confusão. O dia 14 de setembro, um domingo, é a data mencionada tanto como sendo a do primeiro training, quanto como o dia do primeiro jogo da vida do Coringão, contra o União. A dúvida toma desmedida proproção ao observamos em qualquer calendário que dia 14 era quarta feira, dia de batente. Provavelmente a vaquinha para a primeira bola tenha ocorrido nesse dia... Ou ainda um bate bola entre os garotos do Arquidiocesano, do Coração de Jesus, do Gymnasio do Carmo, a estrear o campo do lenheiro, como reconhecimento do gramado. Certo é que estavam presentes tanto César Nunes quanto seu irmão caçula, o Manuel, o Grande Guerreiro, o Primeiro,
Neco. Ambos vinham do Botafogo.
Antoninho de Almeida, o Ancião (o Glorioso foi durante toda sua vida, até pouco tempo atrás, quando este Valoroso Senhor deixou este mundo, o único clube do mundo a ter um Ancião Oficial, com carteira assinada e tudo. Era o meu velho e bondoso amigo, Toninho, que andava com as mãos que lhe foram decepadas na máquina da fábrica, escondidas no bolso, uma vez que já não podia contar com elas. Mas assim mesmo ele escrevia cartas. Isso que é Corinthiano!!) que ainda era muito menino na época para poder ter visto, afirma que foi no dia 10 o primeiro jogo, contra o União.
Fato maior ainda é que enfrentar o União como primeiro jogo da vida era em si uma enorme temeridade. Ele havia faturado muitas do Botofogo, era uma equipe excelente que deveria golear o adversário. Esse jogo, na Lapa, foi assitido por muitos estudantes da Politécnica e por muitos operários da Sorocabana, entre eles o meu bisavô, que inaugurou a Tradição na nossa Família. O resultado foi magro, e favorável, naturalmente, ao União. Mas foi tão duro, tão difícil, tão suado, tão magro, que a sensação era de que se o vento soprasse para um lado com mais força, o placar virava. Não houve nenhuma briga, e no final houve sim uma cervejada, uma recreação, um petit comitê entre gentlemans.
O União não era um time qualquer, e chegou na segunda divisão da Associação Paulista de Esportes Athleticos, contando com Américo Fiaschi. Ele percebera que o Glorioso estava destinado a ser o Timão da cidade, pois em volta do campo já havia muita gente para um jogo de várzea qualquer, e em 1913 ele também viria a vestir o Manto do Guerreiro, tendo respeitado desde o princípio. O primeiro time do Glorioso tinha Valente no gol, Perrone (capitão) e Atílio; Lepre, Alfredo e Police; João da Silva, Jorge Campbell, Luiz Fabi, César Nunes e Joaquim Ambrósio.
As camisas foram lavadas, e antes de se esgarçarem pelo uso e as golas e punhos se esmaecerem em um azulado, Miguel Bataglia já tinha tomado as providências para que o club pudesse seguir sua vida. Ele não podia seguir na presidência. Um mês, se tanto. Mas foi nas mãos cuidadosas deste alfaiate que o Glorioso ganhou certidão de nascimento e o primeiro teto sob o qual se abrigou, e em sua casa (ou sua alfaiataria) fora aberto um espaço para o sonho e para a utopia.
Porque o Corinthians no começo foi uma utopia.
O Corinthians Paulista se estruturou com jogadores que davam o sangue no campo, suavam a camisa desde o primeiro minuto, e essa característica formou a índole, de César a Idário, de Idário a Touguinha, de Touguinha a Goiano, de Goiano a Carbone, de Carbone a Vladimir e Zé Maria, a Zé da Fiel e Ezequiel, e por isso tudo, apesar de todo o tempo corrido e descorrido, ainda hoje a Fiel sabe perdoar todas as fraquezas do time, menos o pecado mortal do corpo mole, falta de fibra, ausência de garra, que para os outros clubes pode até passar em branco.
E então o pessoal foi pedir à costureira, uma judia, que ela lhes fizesse uma bandeira, metade preta, metade branca, bem grande, e foram ao Padre Padova pedir que a benzesse. O padre olhou aqueles rapazinhos de olhos brilhantes com a bandeira dobradinha nas mãos, e no começo achou graça, mas depois pensou um pouco, meditou e concluiu acertadamente que se Nosso Senhor Jesus Cristo lá nas arquibancadas do céu, se olhos tivesse para algum time aqui na Terra, sem duvida seria para um time de gente humilde e esforçada, time de migalhas, e jamais para um time de epulões. E então foi lá dentro na sacristia, apanhou a estola, colocou-a em volta do pescoço (mais ou menos como fazia Miguel Bataglia com a fita métrica), ergueu os olhos e deu uma bênção em latim, e a partir daquele momento a bandeira preta e branca ficou luminosa com todas as cores do prisma... e desde aquele instante em que todas estas coisas aconteceram e que a moçada voltou com a bandeira benta desfraldada, o Corinthians foi, e é, a cara do Brasil...
Em tudo, a cara do Brasil. Principalmente nos contrastes. Até nas crises. E na maneira de vencê-las.
Os primeiros passos do Glorioso tiveram de sobrepujar não apenas as dificuldades inerentes à sua própria frágil estrutura, mas também o clima de exacerbação que afetava o futebol de Piratininga.
A rigor, qualquer clube de operários não podia ter outras pretensões que não fosse se divertir pelas várzeas da cidade. Era um tabu.
O Corinthians quebrou este tabu, mas sem duvida teve de fazer das tripas coração.
Continua.