Pacto de guerra
Chega de besteiras. Segunda divisão não é coisa para o Glorioso, mesmo nesse nível em que o traidor o deixou.
Leão sabe que estão defendendo um Manto Guerreiro.
E Leão sabe que sua juba está em jogo. E os jogadores sabem que o “paçe” deles também.
Fez-se o pacto.
QUE SE CUMPRA O PACTO.
A Fiel comparecerá.
O Juca
Ele fala o que este Mosqueteiro que ouvir e quer que ouçam. E o que este Mosqueteiro sempre disse.
A Corinthianidade é contínua, como se pode observar.
Alla salute. Ao Corinthians!!!
VAI CORINTHIANS!!!todos os créditos ao Mestre DiafériaA vida colorida em
preto e branco
Para escrevermos a história do Sport Club Corinthians Paulista é preciso reservar espaço para a paixão fluir dos dedos. Além da paixão, a história do Corinthians precisará ter ouvidos para o sussurro das sombras, acreditar na veracidade da imaginação. Não basta ouvir o depoimento dos vivos, escarafunchar papéis enrugados pelo tempo, lembrar do que dissera o ancestral. A história do Glorioso depende de auscultar a voz dos fantasmas, voltar a percorrer as margens do Tietê com seus sanhaços e tié-sangues – pois ali ainda pairam os ecos dos primeiros sonhos.
Talvez seja necessário voltar os passos ao Bom Retiro. Mas o Bom Retiro não é mais o Bom Retiro das meninas com sotaque do Juó Bananere:
Ai chi mi dera
Chi o meu úrtimo sospiro
Fosse lá no Bó Ritiro
I o meo túmbulo tambê
Ficá pr´a sempre
Giunto das intalianigna
Cada quar mais bonitigna
Maise bó non podi avê
Não há grilos noturnos nem cigarras no verão. O cometa que por ali passou em 80 foi um arremedo do cometa de 1910. Já não se fazem cometas como no tempo do cocheiro Alexandre Magnani.
Mas mesmo que a história pudesse ser contada por inteiro, sem lacunas e sem omissões, restariam sempre alguns enigmas no miolo do fenômeno – pois digam o que disserem, o Corinthians é uma invenção fenomenal do povo. Enigmas, sim! Como é que o Corinthians resistiu, sobreviveu, e está aí, forte, apesar de uma ou outra crise sazonal? Outros clubes nascidos na mesma época, com a mesma raiz, paridos numa mesma barriga varzeana de terra preta molhada de rio, arrepiaram carreira, sucumbiram, se desmancharam, foram pulverizados. O que sustentou o Corinthians e manteve acesa a chama, se no começo, na sua infância trôpega, arquejante, o clube não passava de uma ilusão?
E tanta ilusão que foram copiar um nome inglês – que não queria dizer coisa alguma – para denominar um clube que hoje pode ter inúmeros subnomes – Coringão, Córints, Coringa, Cachaça, Timão, Todo-Poderoso, Glorioso – mas um único significado: é povo total, do gorrinho ao bico da chuteira. Dizem que Corinthians vem do grego. É verdade. Mas pode vir também de Minas, onde existe uma Corinto, com coreto, uma igreja de Nossa Senhora da Glória e bancos na praça. A Corinto mineira é o centro geográfico de Minas Gerais. Todo mineiro que nasce em Corinto é Corintiano, sem o ‘ h’. Descobriu-se em um dicionário de Oxford que “corinthian” significa “gentleman”.
Mas mesmo que se explique o nome, mesmo que se conte como é que o nome do Corinthians foi escolhido numa noite do Bom Retiro, será preciso prestar enorme atenção ao passado se se quiser entender o Corinthians do presente e, possivelmente, o Corinthians do futuro. O Corinthians parece ter sido o primeiro clube a democratizar-se de fato. A escolher o seu caminho em decisões abertas, embora às vezes as custas de cicatrizes fundas. Os chamados “cinco operários”, os Primeiros, jamais chegaram a presidir o clube. Não que fossem alijados das decisões, isso não. Seria impossível. Nos primeiros tempos, todos palpitavam: jogadores, associados, mesmo os simpatizantes que ajudavam a reforçar as “vaquinhas”. Jogador não atuava apenas dentro das quatro linhas do gramado. Jogador atuava também nas assembléias.
É possível que a interferência e a influência dos cinco primeiros que davam duro nas oficinas ferroviárias da São Paulo Railway (viva o meu Vô Martins), no bairro da Lapa – onde viviam em contato com os estudantes da Escola Politécnica que ali realizavam testes de aula e faziam estágios como futuros engenheiros -, tivesse sido mais palpável nos primeiros três anos de vida do clube, justamente a fase que menos resíduo deixou em documentos e comprovações. Não há atas da infância Gloriosa. Dela sobrou apenas a primeira taça, de 1912 – a Unione Viaggiatori Italiani.
O Corinthians nasceu paupérrimo. Bernard Shaw costumava dizer que todo ricaço gosta de contar como ganhou seu primeiro centavo, mas não faz questão de dizer como ganhou seu primeiro milhão. É comovente ouvir histórias de como a pobreza consegue subir na vida. Mas o Corinthians nasceu de tal forma pobre, sem teto, sem um pedaço de chão, com os primeiros calções feitos de saco de farinha, que perto dele o Bangu podia se gabar da fama de marajá.
O Corinthians era chamado de clube de operários. Não era ofensa. Era uma constatação. Mas nenhum pobre gosta de ser chamado de pobreta. O Corinthians vinha formado dessa gente, desse tipo de criatura que dá duro, lasca pedra, parafusa trilho em dormente, revisa êmbolo e caldeiras, limpa tênder de locomotiva e começa a carreira burocrática ajudando o chefe dos escritórios a organizar as pastas de faturas, memorandos e recibos.
Na época, fora o Velódromo, de Dona Veridiana, tudo eram várzeas. Até a Chácara Dulley era várzea. Charles Miller, filho do sr. John Miller e de Dona Carlota Alexandrina Miller, levou suas bolas de capotão inglesas para a Várzea do Carmo porque era naqueles terrenos encharcados dos vapores de rios, córregos e regatos, que se abriam os horizontes livres para a molecada mostrar o que havia aprendido na rua ou ensaiado nas escolas dos padres e nos grupos escolares do ensino público. Neco, paulistano da gema, era linha de frente no time do Liceu Coração de Jesus. De lá vinha também seu irmão mais velho, César, o Paredão, fundador do Corinthians, cara duro na queda, pesadão, nervosão em campo, caráter íntegro. Numa das quentes assembléias do clube, César aderiu afoitamente a um grupinho de oposição que tinha levantado dúvida sobre as contas do presidente Ricardo de Oliveira. Designado para fazer parte de uma comissão de revisão dos balancetes, César caiu em si, concluiu pela lisura dos números, e numa reunião seguinte, publicamente, com humilde dignidade e generosa retidão, pediu desculpas ao presidente ofendido. Quando mais tarde, muitos jogos e vitórias passados, as pernas fraquejaram e César não mais se sentiu útil na defesa do Manto Sagrado, nem mesmo na lateral da intermediária, para onde fora recuado da linha de atacante, fez um discurso de adeus à bola e aos gramados. Nesse dia chorou. Pendurava então não apenas as chuteiras, mas também um pedaço da melhor parte de sua mocidade. Contudo, jamais abandonou o Corinthians, pelo contrário. Os Nunes eram assim.
Neco, o jogador-símbolo do Corinthians, vivia assediado por outros clubes. Desses, o que jogou mais pesado para conquistá-lo foi o Fluminense, de Arnaldo Guinle, homem poderoso, simpático, bem falante, e um dos donos das Docas do Rio de Janeiro. Neco havia feito misérias naquele dia 29 de maio de 1919, a quarta-feira que o presidente Epitácio Pessoa tinha declarado feriado nacional para que o povo pudesse acompanhar a decisão de Brasil e Uruguai no campeonato Sul-Americano de Futebol. O campo do Fluminense estava entupido de gente desde as dez da manhã., O jogo começou as duas da tarde; foi nesse dia que Friendenreich marcou o gol que deu o título ao Brasil. Nesse dia Fried ia ser carregado em triunfo, mas antes avisou que quem devia subir nos ombros do povo era aquele moço franzino, de 24 anos, que tinha feito toda a jogada, vindo lá de trás driblando os uruguaios, limpando, e mandando o centro da linha de fundo: Neco.
Neco ganha manchetes. Guinle oferece um banquete no Hotel Sul-América, e manda alto uma proposta para o Corinthiano: 100 mil cruzeiros de luvas, um emprego bem-bom nas Docas, para Neco mudar de camisa.
Neco diz não.
O Corinthians não lhe pagava mais que o Fluminense lhe pagaria.
O Corinthians não lhe pagava nada!
Neco voltou a São Paulo, foi cumprimentado pelo governador Altino Arantes no Palácio do Governo, e acabada a festa foi para a casa a pé. Só tinha 200 merréis no bolso. Pior: no dia seguinte Neco foi trabalhar normalmente, na marcenaria que fabricava móveis em Santana. Surpresa: estava despedido, por ter faltado ao serviço!
Os Corinthianos ficaram de cabelo em pé, ouriçados quando ouviram falar da proposta do Fluminense. O time jogava no campo arrendado da Floresta graças aos bons préstimos do Dr. Alcântara Machado junto ao Dr. Washington Luís; se dependesse de dinheiro seria impossível segurar Neco. Mas Neco não jogava por dinheiro.
Jogava pelo Corinthians.
Para o Corinthians.
Preferiu o Corinthians.
Em outra ocasião, correu um boato forte de que um clube inimigo estava namorando a fama do grande craque Corinthiano. Os rumores chegaram à casa de Neco. Pois foi na porta de casa que Neco topou com o pai, o robusto lusitano Antônio Bertoldo, que o esperava de cara fechada. “Seu” Bertoldo nem falou boa tarde. Parou Manoel na soleira:
-Menino, escuta: se vais mudar de clube nem me entres cá na casa!
O Corinthians nasceu numa época de crise no futebol de São Paulo. O esporte bretão estava cindido em dois grupos. Não havia união. De um lado, a liga; de outro a APEA. Cada um com seu campeonato próprio.
Fora isso, o Corinthians carregava mais um fardo: tinha cheiro de operário, de povo. Seu time era formado com os melhores da várzea, sabia escolher. No Corinthians jogava o melhor. Não tinha cartucho, pistolão. E o jogador tinha de ter o recibo em dia. O Corinthians poderia jogar no Velódromo, se prevalecesse a qualidade de jogo.
Mas havia cheiro de várzea em seu futebol. O preconceito é uma erva daninha, a formiga lava-pés dos gramados de futebol. Barrava-se o futebol operário até a última porteira. O Sport, semanário ilustrado, que tinha como colaboradores Washington Luís, Antônio Prado Junior, o capitão Balencie, da Missão Francesa no Brasil, o tenente-coronel Soares Neiva, comandante do Corpo de Bombeiros, e esportistas como Mário Cardim e José Rubião, num editorial de abril de 1914 defendia o direito de os operários participarem das... atividades desportivas!
“Assim, portanto, o operariado, como toda criatura humilde dentro da sociedade, não pode ser privado da ação esportiva...”.
A história se repete. Hoje a mesma imprensa também tripudia, dessa mesma forma.
Mas advertia: “O clube que os admitir é quem toma toda e inteira responsabilidade do que esses indivíduos possam praticar dentro das relações dos clubes...”
Nossa çoçiedade ainda é escravocrata.
De onde vinha, afinal, o dinheiro para sustentar esse clube ousado que desejava ser mais que um clube varzeano de operários?
Das “vaquinhas” das ruas e dos funcionários mais abonados da SP Railway, da Light and Tramway, da Companhia de Gaz. Ajudavam, sim. Afinal, era o Corinthians! Em certos bairros não havia quem pensasse que o Corinthians era um clube... inglês?
Na história do Corinthians nenhum presidente assumiu o cargo sem imensa cota de sacrifícios. Ainda que coberto de fama e glória, todo presidente corinthiano grama, padece, sofre. E se acha injustiçado. Quase sempre o é (não quando é o traidor).
O Corinthians é um vulcão japonês indormido. Ali fervem o sangue luso, um pouco dos mouros, a cimitarra árabe, a família dos macabeus, a espanholada que enriqueceu com cobre e zinco, os paulistas descendentes dos Alcântaras e dos Machados, e algumas ramificações do povo da Bota que encheram as noites do Bom Retiro de bandolins e pizzas napuletanas. Bote-se tudo isso num cadinho, mexa-se em fogo brando apaixonado, misture-se essa poção poderosa com o povo brasileiro, nós, e está feita a explosão chamada Corinthians Paulista.
Como se vê, a receita é Simples.