Não se trata de futebol, ou qualquer outro esporte. É Alma, uma lição cívica, manifestação palpável de aspiração popular pela emancipação.
É Corinthians.
"
O senhor é seu Cláudio?", um garoto, adolescente, pergunta, na rua, a Cláudio Cristóvão do Pinho, a Alma Gloriosa em campo, um Corinthians Encarnado, um retorno a Neco. Ele já havia parado há alguns anos.
"Sou", respondeu aquele que honrou o Manto Glorioso e Sagrado do povo por mais de treze anos, como jogador.
"O senhor ouviu o programa do Fiori Giglioti na Bandeirantes, o 'Cantinho da Saudade', no domingo? O programa contou a sua história'. O menino era um grande Corinthiano e não sabia, ainda. Cláudio respondeu que não havia ouvido o programa, infelizmente, mas passou a conversar com o menino.
"Foi legal, seu Cláudio". Fez uma pausa. Depois perguntou: "O senhor é Corinthiano?"
"Vou responder sua pergunta com outra pergunta; você é Corinthiano?"
O garoto riu: "Claro, né!"
"Pois então eu sou Corinthiano, por sua causa."
"Não entendi..."
E então Cláudio explicou que tudo o que tinha na vida, tudo o que havia conseguido, tudo o que lhe fazia sentir orgulho (tendo parado há anos de jogar bola) de alguém ainda lhe procurar para que falasse do tempo em que era o Gerente das Tabelinhas naquele que foi o Timão em sua época, ele devia à Torcida do Corinthians.
E que torcida!Os outros clubes são fundados e depois conquistam sua torcida. O Corinthians é a torcida que inventou uma devoção particular e a transformou num clube.
Mesmo sem nome, já era uma torcida. Tinha feito um pacto, gerado uma simbiose, armado uma união. Daí vem a energia, a base, a seiva que explica a sobrevivência do Corinthians, mesmo quando tudo e todos parecem conspirar contra sua existência.
Cabe ao jogador entender esse aspecto do fenômeno; é necessário mergulhar na crença de que o povo é também o time. A História Gloriosa desde César Nunes, transforma em ídolo nem sempre os que jogam melhor, mas sim os que se jogam por inteiro na defesa do clube. César nunca foi craque, e é até pouco citado quando de fala do Corinthians dos primeiros tempos. Mas a influência de César na Mística Corinthiana, com a disponibilidade total com que se entregou ao então pequenino clube, é quase insuperável (se não fosse o seu irmão caçula, o Manoel...). Dizem que Idário, grandioso beque, em dia de semana era pedreiro, erguia parede, carregava tijolo, respaldava alicerces. No domingo Idário desconhecia cansaço. Entendia a torcida, como poucos. Ao lado de Goiano, Roberto, Julião, Aleixo, ele se tornava mais que um jogador Corinthiano. Ele se tornava um Fiel Corinthiano.
É a esses que a Fiel se afeiçoa, é com esses que se integra e se faz um único agente da História. O Corinthians sem Fiel é navio sem leme, sem mastro, à deriva; avião sem turbina, uma ponte cortada ao meio; não faria qualquer sentido. Simplesmente não é, ou não seria.
Na Cidade Corinthians, caminhando para a direita, depois da Ágora, há um obelisco, sem nada de ostentação. É um pedaço de pedra com quatro faces, homenagem erguida em 1952 (pois é, senhor Cláudio) ao Torcedor Corinthiano. Não está por acaso, preenchendo lacunas, mas por obrigação da consciência de quem sabe o que é Corinthians, quem o fez, quem o sustenta, quem não o deixa esmorecer na escuridão e quem com ele brilha na Glória.
"Torcida que vibra, entusiasma, sofre, aplaude e delira. Torcida exemplo, sempre coesa e uma, nas horas claras e nos momentos crepusculares. Torcida razão primordial de todas as vitórias".
Bem poderiam ser apenas palavras gravadas em momento de oportunidade. Mas no Parque São Jorge não se gravam à toa palavras na pedra. O humilde obelisco está naquele lugar plantado entre árvores e flores para sussurrar aos ouvidos dos que estão chegando agora, dos Corinthianos que não ouviram o som da galera na Ponte Grande, no Lenheiro e mesmo nesse Parque São Jorge quando era apenas metade água e metade terra, enfim, para dizer aos ouvidos dos Corinthianos mais recentes que a torcida do Corinthians é, ela mesma, o próprio monumento.
"Minha Alma também é preta e branca. Sou toda Corinthians, por dentro e por fora"
Elisa, Símbolo inigualável do Corinthianismo.