"Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia."
Mahatma Gandhi (1869-1948)
Acho lindo o pacifismo. De fato vive-se muito melhor com pacifismo, o apaziguamento dos ânimos, a não-violência; é na paz que se pode construir. Tanto é que, por paz, devemos conceituar o estado daquilo que não sofre influência de nada que possa destrutivo. Mas recebe influência de tudo aquilo que constrói.
Não se trata de bem ou mal, mas do inteiro – o constructo, a inteireza – e o fragmentado – o destructo, a redução. O pacifismo visa o todo. Uma de suas grandes antíteses, a violência, gera a fragmentação.
“Grandes antíteses” pois o pacifismo é o inverso da maioria das potencialidades humanas.
O pacifismo é o que o mundo deveria buscar realmente. É o que há de mais evoluído.
Mas pera lá. o que vem a ser evoluído, se a mesma podridão da carne a todos carrega? Se me tenho por mais ou menos estúpido que a grande maioria é através de diversos fatores, externos, aos quais não poderei levar em conta a mim mesmo, o meu “espírito”.
Evolução espiritual não faz parte desta metafísica aqui. Não podemos crer que ela seja apenas metafísica, portanto. O ser é tão ou mais evoluído se tanto mais sinapses pacifistas – visando o constructo – ele estabelece e estabeleceu na alma.
Não há como haver quem seja mais evoluído pois a inteireza do mundo não poderia estar inscrita em suas sinapses. Não há espírito antes que haja espírito.
É muito belo o pacifismo, pois ele é a antítese dele mesmo. Pois para se declarar pacifista a pessoa terá de admitir-se mais evoluída que as outras pessoas e – opa!, isso já constitui o que os filósofos das ágoras gregas denominavam paradoxo.
Ao se declarar pacifista a pessoa, portanto, fragmenta o mundo, da mesma forma que o violento faz. Mas o pacifista atinge o cerne do paradoxo, e o violento jamais chegaria lá. É mais ou menos como a liberdade, que só existe nas relações com os seres e com as coisas, não podendo ser em si. Ela não possui essência.
O pacifista só o será se o mundo for pacifista – e nesse momento ele não existe mais.
Sobre a não-violência, mesmo frente às injustiças (cotidianas e/ou extra cotidianas), podemos dizer que é um ato de auto-afirmação e também um ato de afirmação da inteireza do mundo. Se não constrói, ao menos garante a possibilidade disso vir a acontecer; a violência apenas pode destruir.
Mas ao mesmo tempo em que a violência é excesso de paixão, que arrebenta corpos (maldade é outra coisa), a paz não pode ser a ausência de paixão. Senão ela passa a determinar seu próprio fim; uma vez sem paixão não há a própria paz, o constructo. Por isso é fácil identificar a falsidade do pacifismo: não está na paixão com que age contra a não-violência, mas nas atitudes não-apaixonadas.
Não é o mundo pacifico que pagará as contas da operação do tumor de estômago – maligno – que aquele falso pacifista adquire ao engolir a paixão a seco sem vomitar.
A paixão pode e deve ser pacífica.
“A raiva e a fome é coisa dos home”, disse o poeta. Se não há raiva é porque não há aquilo que gera a raiva, que é a paixão. Corpo sem vontade é amorfo, alienado, acomodado nas saliências do caráter. Que haja apenas a vontade de destruição, ainda assim se trata de um ser possuidor de vontade e nele há a potência da paz, pelos caminhos mais diversos.
O homem pode ter e ocultar por livre arbítrio as suas vontades, e por isso pode ser alienado. Nenhum animal a não ser o homem pode ter a vontade de construir estruturas espirituais e materiais para o mundo, mas em contrapartida o animal não passa fome nem raiva apenas porque quer.
E quando o homem o faz é porque é alienado. É necessária uma causa para a raiva, e ela é e sempre será humana.
E se há uma causa para o ódio, como subverter este ódio à construção?
Eis a grande questão que, houvesse sido respondida há mais de três milênios, não só dispensaríamos a metafísica, como descartaríamos, finalmente, o dinheiro – que causa mais ódio que constrói.