Inauguro aqui uma nova sessão. Ela tem um propósito claro de posicionar este
Jornar com relação, principalmente, ao que estão planejando fazer trazendo esta copa do mundo em 2014 para cá. Pois isso implica no atentado à
ARQUIBANCADA brasileira.
Este
Jornar entende este disparate como um passo a mais dado pela agenda política de destruição, que acontece em oposição a nós, torcedores de
ARQUIBANCADA, e principalmente em oposição aos clubes que nasceram na várzea.
Pois muitos irão estranhar o fato de um
Palestrino e um
Corinthiano escreverem um texto. Que, apesar de esmiuçar a maneira como surge em plena curva da história a mais suja artimanha de tal agenda política, não quer apenas dizer que há algo que nunca deveria ter ocorrido, na história que se entrelaça. O maior dos erros foi conjunto, é verdade, gostaríamos de repará-lo; mas aqui está em jogo o futebol. Que depende da alma de seus jogadores e de seus torcedores.
Que, de esporte popularizado, tornado genuinamente popular, no começo do século vinte, passou a ser um movimento financeiro, um troço massificado e mediocrizado, um século depois.
Nestes termos, a história que aqui será contada, a inaugurar esta sessão, pode ser tomada, ou não, ao pé da letra. A narrativa corta na carne em sentido figurado. É polêmica. E é real.
E defende o futebol.
"Como é que pode jogador perder gol a duas, três jardas do gol?"Manuel Nunes - O Neco, maio de 1977Jorge, Gennaro, e o menino sem alma
Desde a várzea paulistana, o berço de tudo, Jorge e Gennaro foram criados no preceito mais puro da desportividade: a disputa em nome do manto.
Jorge, pouco mais velho, veio de família operária. Mas sua turma contava com profissionais de uma gama variada de setores, de carvoeiros, cocheiros de tílburi, alfaiates e barbeiros a advogados e professores.
Gennaro descende de imigrantes italianos. Camponeses, artesãos, agricultores, gente de poucas posses, todos impelidos a buscar na ‘Merica uma nova vida.
Vida que só faz sentido com um ideal à frente.
Jorge e Gennaro nunca foram amigos. Eram, pelo contrário, rivais. Desde a mais tenra idade, sempre houve disputa entre os dois. Rivalidade sadia, pois respeitosa. E necessária, pois verdadeira e incondicional. Poderia mesmo ser chamada de “a maior do mundo”.
Jorge foi o primeiro a trazer seus amigos operários para o futebol “grande”, aquele que se supunha de “gentlemen”, diferenciação que existia só pela graça de trazer demérito ao adjetivo “várzea” (cheio de alma, por sinal).
Jorge pleiteou e conquistou o direito de disputar com os “gentlemen”. O povo entrava em campo.
A abertura de espaço possibilitou à turma de Gennaro, após anos de amadorismo, ser considerada maioria em Piratininga, cidade que falava, não por acaso, com o típico sotaque de uma vila siciliana ou calabresa.Não demorou muito para tomarem o lugar dos que antes eram tidos como senhores do esporte bretão nesta Piratininga. Os “gentlemen” viam Gennaro e Jorge superá-los não só dentro de campo, mas também em estrutura.
Por trás de ambos estava o povo, a razão maior do esporte bretão.
Senhores feudais em um século que não o deles, os “gentlemen” gostavam de manter o futebol no amadorismo como maneira de esconder as gratificações que tornavam possível aliciar atletas de agremiações adversárias.Isso não afetava os times de Jorge e Gennaro. Desde os campos de várzea a norte e a oeste da Vila de Piratininga, prevalecia o amor ao manto. Muitos eram os admiradores, logo alçados à nobre condição de torcedores.
Foi assim, com a força de seus povos, que sobreviveram os dois moleques da várzea paulistana. Mais até: cresceram, ganharam títulos e logo deixaram para trás os que pensavam ser nobres.
Eis que surgiu, anos depois, um menino mimado, de linhagem rica, quatrocentona e tradicional, mas com trajetória marcada por separações, brigas e conflitos. Uma família decadente, que sempre tentou esconder seus problemas por trás de uma fachada prepotente.
Assim, o rapazote não tinha seguidores, senão os que foram abandonados pelos clubes de chá-das-cinco, os mesmos que tinham em mente a derrocada de Jorge e Gennaro. O menino mimado era a última chance de tentarem ser algo.
A esta altura, no entanto, ambos já haviam transcendido a armadilha imposta pelos artífices do amadorismo e engatinhavam no profissionalismo vigente.
O menino mimado das elites veio ao mundo sem berço, sem amor e sem alma. De sua gente que virou casaca, herdou os genes oportunistas e nada mais.
Ainda pequeno, de tudo fez para se estabelecer. Estratégias as mais sórdidas, politicagens baratas e muita arrogância serviam apenas para angariar rejeição, inclusive entre os seus.
O moleque tentava se firmar em seu caráter capenga às custas de quem fosse. De nada adiantou; criança ainda, foi à falência. Sem família ou amigos, foi salvo exatamente por Jorge e Gennaro, que se uniram para ajudar o pobre coitado. Triste episódio. Mal sabia Gennaro que aquele fedelho, um dia reabilitado, seria o artífice de uma campanha difamatória contra suas origens. O objetivo era um só: tomar a casa construída com o suor de Gennaro e do povo que o fazia grande. É irônico que tal atitude tenha partido de alguém desprovido de berço.
Ter o sangue do sul da Itália, no entanto, nunca foi coisa pouca. Gennaro resistiu e triunfou diante de um pirralho que, derrotado, abandonou o nobre campo de batalha municipal, à época ainda com o nome purificado.
Tal fato se deu na mesma época em que os comparsas do menino mimado forçaram Jorge a ter como comandante um burocrata golpista, alguém que nem de suas fileiras era. O filhote dos senhores feudais deixava aflorar o seu caráter oportunista.
Anos se passaram, e o moleque seguiu seu caminho desprezível.
Até que, ainda jovem e com padrinhos no poder, ganhou uma enorme casa, custeada com o dinheiro de Jorge, Gennaro e de toda a coletividade.
Manuel, diga-se de passagem, outro boleiro destas paragens, também entrou na lista dos vitimados pelas politicagens baratas e maracutaias da escória sem alma.
O rapaz sem alma foi ganhar corpo décadas depois. Em posses, nunca em caráter. Suas conquistas eram vazias, pois sem o doce sabor da superação.
O menino ganhou o mundo, mero instrumento para a lavagem cerebral que visava ganhar apoio de cidadãos desprovidos de alma e de qualquer senso de julgamento moral.
Dele se aproximaram as figuras mais desprezíveis.
Aproximação não por amor, mas por interesse.
Não aquele financeiro, típico das nossas oligarquias mais putrefatas, mas por status. Pela enganosa possibilidade de desfrutar do que a vida oferece de mais prazeroso. Sem esforço, é óbvio.
É uma grande moleza, não?
Os seguidores do menino mimado agem como ele. Pensam que o dinheiro pode comprar tudo e vêem a ética como um atributo pouco relevante, quase indesejável.
Não é à toa. Ao longo de toda a história, acostumaram-se a ver todo tipo de favorecimento vindo dos canalhas de amarelo, de toga e de ternos bem cortados.
Tampouco conhecem a própria história. Mais fácil (sempre a mesma lógica!) acreditar nas invencionices tacanhas de quem empunha um microfone ou uma caneta sem dignidade para tanto.
Afinal, trata-se do filhinho daqueles que tomavam o chá-das-cinco no começo do século, pensando em como afastar o povo do esporte que começava a ganhar força no imaginário popular.
Os que seguem hoje o garotinho mimado o fazem por esta necessidade de ter status, de esnobar, de mostrar o que têm e o que não têm.
Como se preza a todo novo rico, é bom cultivar esta imagem.
“Ter é mais importante que ser”. É como pensam os oportunistas. É como cresceu o menininho mimado, sempre cercado de bajuladores e de pessoas que se adulam nas posses e em nada mais.
Ao ver que Jorge e Gennaro tinham o que ele não tinha, tratou de correr atrás. E o fez não como os guerreiros da várzea paulistana, mas como se preza a alguém sem história para contar.
Como é vazio o menino mimado, tudo é adorno. Que atrai nada mais senão a soberba medrosa da necessidade de reafirmação. São badulaques que se penduraram no vazio. Um prato cheio para oportunistas.
E os oportunistas se enfeitam, mas só enquanto for moda.
Porque na vida há coisas que superam, e muito, a imagem.
Os dois pioneiros do esporte bretão já viveram o ocaso, assim como as maiores glórias. Fácil nunca foi. Ficou a lição: as maiores vitórias são aquelas que acontecem após a tempestade. Cair, levantar e dar a volta por cima: eis a virtude dos guerreiros.
Jorge, por exemplo, passou anos e anos sem ganhar nada. Quase na miséria, os amigos só faziam crescer, mais e mais. Tanto cresceram que protagonizaram o momento maior de sua vida. O significado disso que viveu revigorou sua alma.
Uma nação que cresce na adversidade tem muito a contar, pois viveu intensamente. O povo confortou Jorge ao longo de décadas de sofrimento com o mesmo amor de uma mãe.
Assim foi também com Gennaro, que, no momento mais complicado de sua caminhada, teve por perto todos os seus. Foi ao fundo do poço para então retornar nos braços de quem, por amor, o amparou.
Para Jorge e Gennaro, sofrer faz parte das maiores conquistas.
E o povo estará sempre por perto, seja qual for a situação.
Ao moleque mimado, sabe-se lá o que aconteceria se chegasse ao fundo do poço.
Dirão os oportunistas de plantão, com a empáfia que lhes é peculiar: "Jamais cairemos do nosso pedestal".
Só o tempo pode dizer. O que se pode ter desde agora é a certeza de que de nada vale ser sustentado por quem está ao seu lado por interesse.
Interesse de ostentar o produto que é o mais vendido no momento, aquele que é o mais badalado, a modinha que está pegando.
Quem vai atrás da turminha só o faz para evitar que o ponto fraco do caráter seja desmascarado por qualquer “tirador de sarro” por aí.
Fácil é se proclamar vencedor sem enfrentar as dificuldades.
Fácil é se afastar na hora das batalhas para só aparecer na hora da festa, proclamando algo que nunca foi e nunca será.
Vencer é para poucos; é para quem luta.
Especialmente na adversidade.
Não dá para esperar isso dos acompanhantes do menino mimado, que somem ao primeiro revés.
Quem se declara vencedor depois de estar longe por toda a batalha é, na verdade, um fraco. Bajular na hora da conquista é fácil; e não exige alma. A hipocrisia está em moda, infelizmente.
Só quem luta e está presente na vitória e na derrota sabe mensurar o que é uma conquista e o que é mera propaganda.
Só a alma detém a verdade.
Ser parte de uma geração vitrine, que vive de ostentar aquilo que veio sem suor, é cômodo.
Tão cômodo quanto vazio.
E está impregnado à genética oportunista dos que não têm alma.
Amar é sofrer. Amar é se doar.
Amar é se dedicar, mais ainda nos momentos difíceis.
Jorge e Gennaro sempre souberam disso.
Assim foram criados.
Esta é a lição que passaram para suas torcidas...